RELATO HISTÓRICO

 

Fonte - Prefeitura Municipal de Caratinga-MG.

Prefeito - Ernani Campos Porto.

 

 

 

            Ao percorrer pela estrada que dá acesso ao distrito de São João do Jacutinga, nos encantamos com a beleza da região que traz uma vegetação típica dos mares de morro, passando por lindas folhagens coloridas, as quais levam qualidade de vida às comunidades que a cercam e a todos que por ali passam. Localizada na zona rural da região leste de Caratinga, numa área de 490 km2 e mais de 6.500 habitantes e englobando também mais 20 comunidades onde compõem o entorno da Reserva Particular Patrimônio Nacional – Feliciano Miguel Abdalla – Estação Biológica de Caratinga. Assim é São João do Jacutinga , um lugar acolhedor, de pessoas simples e receptivas que guardam na memória uma história rica não só para o próprio distrito, mas para a toda região. Para compreendermos melhor a descoberta desta terra maravilhosa, bem como o papel dos descobridores, faz-nos necessário interligar a História do Distrito com os acontecimentos políticos e sócio-econômicos do Brasil daquela época, resultando numa maior abrangência dos fatos. A estrutura fundiária do Brasil sempre foi marcada pela tendência ao latifúndio, desde dos primeiros tempos de colonização com a introdução do sistema de Capitanias Hereditárias. Os donatários utilizavam o regime de sesmarias, adotando critérios de aquisição de terras baseados na doação. Esta distribuição de terras adotada pelo Estado, perdurou de 1530, chegada de Martim Afonso de Souza, português a serviço da Coroa Lusa para iniciar a colonização do Brasil, até 1822, quando foi alterada pela resolução governamental de 17 de julho de 1822, que o extinguiu. D. Pedro I em 22 de outubro de 1823, criou por outro lado uma situação de indefinição decorrente da ausência de novos critérios. A nova situação, que perdurou até 1850, permitiu, por sua vez, a formação de pequenas propriedades familiares através da posse. Diferentemente do sistema de sesmarias, segundo o qual primeiro se recebia a terra para depois cultivá-la, com a posse ocorria justamente o oposto: primeiramente passou-se a explorá-la para depois legalizar o direito de propriedade. É dentro deste contexto que, em 1849, vindos de Juiz de Fora, chegaram nessa região os desbravadores Serafim de Souza Lima e José Caetano, posseiros, que após terem explorado as terras, conquistaram quatro sesmarias equivalente a mil alqueires de terra, tornando-se os fundadores de São João do Jacutinga. O curioso é que, em 1848, um ano antes da descoberta de São João do Jacutinga, tinham sido desbravadas as plagas caratinguenses por João Caethano do Nascimento, o qual se insere o atual Distrito de São João do Jacutinga. É interessante destacarmos também que o desbravador de Caratinga era possuidor de terras em Jacutinga. Nesta região, existia uma espécie de ave denominada Jacutinga, apresentando características parecidas com o Jacu e com pintas semelhantes a uma angola. Na época servia como alimento, pois a carne dessa ave era muito saborosa e apreciada. A origem do nome jacutinga (Pipile Jacutinga) é indígena, encontrada em uma região entre o sul da Bahia e o Rio Grande do Sul, além do norte da Argentina e do Paraguai. Esta espécie está ameaçada de extinção, pois foi caçada predatoriamente e vitimada por desmatamentos; pesa entre 1,1 kg e 1,4 kg. A criatividade popular e a fé, elegeram São João como padroeiro e o associaram com a ave, vindo a se chamar São João do Jacutinga. A corrida de ocupação começou com o desejo rápido de enriquecimento, iniciando o trabalho de preparação da terra para o plantio de cereais, frutas e legumes, além da criação de pequenos animais. Entre fins do século XIX e início do século XX, outras plantações foram surgindo, a cana-de-açúcar se tornou um de seus maiores produtos cultivados, surgindo daí a produção da cachaça, onde podemos destacar como o maior produtor o Senhor Geraldo Cupertino que no ano de 1964, iniciou a produção, gerando emprego à população. Paralelamente às primeiras plantações de cana-de-açúcar, a criação de gado se fez presente. De início, a produção era voltada para a subsistência, evoluindo algumas décadas depois ao consumo local e regional. As técnicas de criação tanto no primeiro momento como no segundo eram realizadas dentro do que hoje na pecuária se denomina criação extensiva, sendo realizada nos dois períodos de modo simples e rudimentar. Do gado pioneiro se aproveitava quase tudo, desde o leite e a carne, como o couro destinado à vestimenta e utensílio doméstico, produzindo tapetes, odres e outros objetos. Com a expansão da criação, o gado era direcionado para produção leiteira e de corte. É com esse leite que ainda se produz o queijo e o requeijão que são vendidos para grandes centros, inclusive para o Rio de janeiro. A carne também é destinada aos açougues locais para o consumo interno e vendidos para compradores de outras regiões. Se tratando das atividades econômicas do distrito, tínhamos também como destaque a fabricação de roupas por alfaiates, sendo um dos pioneiros o senhor José Rodrigues, juntamente com os seus aprendizes, costuravam para a população local. O trabalho era intenso, as encomendas eram muitas, devido ao fato da dificuldade em que se encontravam nas estradas para percorrer até aos municípios vizinhos, chegou a existir até lojas que comercializavam as roupas feitas pelos alfaiates. Atualmente não se encontram no distrito nenhum desses alfaiates, pois, muitos deles foram espalhar suas técnicas em várias partes do Brasil. Como exemplo o senhor Raimundo Cardoso Dias, residindo atualmente em São Paulo, está construindo residência em São João para novamente dominar as tradicionais técnicas de alfaiate. O bordado também era uma forma de artesanato e comércio. D. Luzia Barbosa, era uma das maiores bordadeiras e D. Maria Luiza também juntamente com suas filhas que herdaram a técnica, faziam do crochê o sustento da família. Ao longo do tempo, muitas construções foram se erguendo, a princípio eram feitas de pau-a-pique. O transporte dos materiais eram feitos no lombo dos animais em trilhas ainda inóspitas. A necessidade de produtos para o consumo local, impulsionou a criação de estabelecimentos comerciais, tendo como pioneiro o Senhor José Turco. Entretanto consideramos a necessidade de sermos justos com a fundamental importância da ação feminina para o desenvolvimento de uma civilização. Confirmando o apontamento anterior, o historiador João Camillo de Oliveira Torres em sua obra “História de Minas” Vol. III, pág, 827, nos diz: “Uma das causas essências de começar-se uma forma de civilização é, em geral, a fixação ao solo; o nômade é essencialmente primitivo, mesmo que tenha elaborado ou adotado um certo número de práticas civilizadas. Esta idéia, com outras palavras, esta em Splenger que, porém não assinalou uma cousa: agricultura é naturalmente matriarcal, é um produto feminino. Foi a mulher que firmou o homem ao solo, vencendo o nomadismo primitivo e permitindo nascesse à vida civilizada, cultura. A cultura do solo e a “cultura” nasceram juntas. A História somente pôde começar depois que as mulheres enraizaram a civilização na terra maternal e fecundadora, permitindo a vida em família, as ocupações sedentárias, a tranqüilidade material e os lazeres fecundos. As mulheres e os lavradores ficaram, por isto, firmemente enraizados no solo numa imobilidade vegetal e preferem a solidez frugal da lavoura aos azares das lutas”. Aos poucos, foi-se formando essa civilização, requerendo a cada dia construções que suprissem a necessidade dos seus habitantes, foi aí que o distrito foi se desenvolvendo. Com o passar do tempo, sentindo a necessidade de uma igreja, ergueram a primeira paróquia em 28/09/1887, até então pertencia a Diocese de Santo Antônio do Manhuaçu. As missas eram celebradas de duas a três vezes ao ano pelo Padre Gustavo Botti, onde tomou posse no dia 03/01/1896, ato comemorado com muita alegria pela comunidade, pois a religiosidade do povo de São João é o seu maior patrimônio. Durante todo o tempo que permaneceu na Diocese, espalhou alegria e ensinamentos, fortalecendo ainda mais os laços religiosos com a comunidade. No dia 25 de dezembro do ano de 1943, foi fundada a primeira Conferencia Vicentina . Em 1952, houve missões em São João do Jacutinga realizada pelos padres José Cilzzi e Padre João Leite. Só a partir do ano de 1968 é que foi organizado o culto dominical, deixando então de ser celebrado só três vezes ao ano. Em 1975, construíram o Azilo da Sociedade São Vicente de Paulo, onde abriga inúmeros idosos da região. Como vimos, a religião é a tradição desse povo, sempre ligados aos laços religiosos, mantém os costumes das festas do mês de Maria, festa do Divino que se comemora todo ano, 40 dias após a Páscoa, com missa, procissão e um belíssimo café da manhã, pois o ritual vai até o amanhecer do dia, festa da Folia de Reis todo ano no mês de janeiro. Dentre as principais festas, comemora-se no dia 23 de junho de cada ano a festa do padroeiro, com fogueira, procissões, fogos e quadrilha de jovens e adultos. No ano de 1989, Dona Olívia, uma senhora que fazia os biscoitos de polvilho mais gostosos da região, recebeu em sua casa o padre Mayrink que teve a idéia de fazer em São João a Festa do Biscoito com o objetivo de ajudar a comunidade religiosa. Dona Olívia Ezequiel de Souza, hoje com 61 anos de idade , ainda residente no local, conta que fazia um enorme terço de biscoito. A comunidade se reunia, fazia doações dos ingredientes e construíram um forno comunitário, para a realização da festa. Eram feitos 18.000 mil biscoitos, aos quais eram distribuídos a todos que ali estavam para comemorar a festa do padroeiro.Com o passar do tempo, houve um crescimento significativo do número de pessoas vindo prestigiar a festa, pessoas de cidades circunvizinhas e até mesmo em outras partes do Estado e do país, vindo também Jacutinguenses ausentes. Através da Festa do Biscoito, São João do Jacutinga resgatou seus hábitos, costumes e valores por onde espalhou sua cultura para toda a região. Hoje, a festa não é mais comemorada no dia do padroeiro do distrito e deixou de ser uma festa de cunho religioso, mas ainda acontece todo o ano , só que não com a mesma intensidade de antes, a comunidade não se reúne mais para a fabricação dos biscoitos e não há mais a distribuição dos mesmos, o que continua é só o nome, Festa do Biscoito a qual se tornou uma tradição cultural. A população de São João é bem consciente no que se diz a respeito da preservação ambiental, formaram uma organização denominada OPL, “O Povo que Luta”. Lutam voluntariamente a favor da preservação e da conscientização do povo . Promovem encontros e cursos em parcerias com outras instituições , como prova dessa parceria , citamos o curso “Colheita e Preparo do café” promovido pela Rede de Intercâmbio de Tecnologias Alternativas- REDE em parceria com a OPL, no ano de 2000, realizado na microbacia do Ribeirão Jacutinga, no município de Caratinga. Lá estavam representantes agricultores das comunidades da microbacia, além de técnicos do Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da mata- CTA-ZM. Trabalharam com os temas sobre a pré colheita do café, planejamento, amostragem de grãos, colheita manual convencional e seletiva, transporte para o terreiro, limpeza do terreiro, dentre outros assuntos para ajudar um pouco mais a compreender os processos mais recomendados de melhoria da qualidade do café o qual é um produto de grande produção na região. Além dessas parcerias e cursos, a OPL, trabalha na luta de conscientização pela melhoria da qualidade de vida da população da zona rural e urbana, objetivando formar um povo mais consciente e envolvido . Recebem visitantes de várias regiões, inclusive do exterior para conhecer a organização. A OPL dá um grande suporte à Reserva Biológica de Caratinga e aos artesãos do distrito. São João do Jacutinga, ainda hoje é um lugar tranqüilo, suas ruas não receberam nenhum tipo de calçamento , tem características típicas das cidadezinhas do interior mineiro, com aquela hospitalidade que só ela pode nos oferecer... e ainda se torna privilegiada pelas lindas cachoeiras e nascentes em um clima gostoso tornando-se uma parada obrigatória nos finais de semana por todos aqueles que por ali passam. Uma das principais cachoeiras é a Cachoeira do Candim. Com todos esses ingredientes, São João poderia ser mais explorada no setor turístico, principalmente no turismo ecológico. No setor educacional, São João não está para trás, possui escolas com ensino médio e fundamental, dando base para as crianças, jovens e adultos seguirem o rumo educacional nas faculdades do município de Caratinga ou em cidades circunvizinhas.

 

Entrevistados:

Zulmira Rodrigues de Souza

Lázaro Rodrigues de Souza

Olívia Ezequiel de Souza

Joaquim Virgílio de Souza